Meus.

Meus.

domingo, 4 de julho de 2010

Sobre ganhos e perdas [ou: sobre a transitoriedade]

Ontem foi a festa de despedida. Ok, uma reunião de amigos para dizer 'até logo', já que - quase todos - estarão aqui quando eu voltar. O problema é que tem uns que não estarão, pela probabilidade são os que eu nunca mais verei, e foram esses que me deixaram com a pior sensação dos últimos tempos: a de, irreversível e inevitável, perda!

Esse tempo todo fiquei concentrada no tanto que vou ganhar e é lógico que essa é a única forma correta de encarar essa nova jornada, porém ontem eu parei e pensei a respeito das coisas de que vou abrir mão, e doeu. Freud já dizia da transitoriedade, de como a vida é uma sequência de fatos efêmeros, de curta duração. Vários terapeutas comportamentais falam da importância do desenvolvimento de uma resiliência interior para poder lidar com essa efemeridade toda. Quando digo algo sobre coragem de viver, de sair e se expor, falo também da coragem de perder. Puta que pariu, a gente perde o tempo todo!!!! E puta que pariu, dói pra caralho!

Acho que na verdade esse pessimismo todo é por conta dum coração partido, claro, eu e minha mania de me envolver no pior momento com a pessoa mais incerta. Tenho dessas, todo mundo deve ter dessas né, de se jogar de cabeça nas coisas mais contra-indicadas. Eu me jogo e foda-se, e sabe que por um lado não tem problema não. Meu coração tá doído agora, é verdade, mas que gostoso que é sentir!!!


Vou me encapar agora de uma atitude positiva, ok. Minhas roupas estão todas ali em cima da cama, precisando ser colocadas dentro da mala, portanto eu vou colocá-las na mala, pois é assim que tem que ser. Vai ser tão bom fazer isso. Obrigada a todos que foram ontem e fizeram a festa mais feliz que uma despedida pode ser, às minhas gêmeas-separadas-no-nascimento que me deram colo. Obrigada às meninas que foram almoçar comigo e com a minha família, obrigada a quem só fala comigo por internet, obrigada a quem me disse palavras de apoio (não tem preço saber que alguém sente orgulho de você). Obrigada amizade veeeelha que voltou à ativa ontem. Obrigada a quem fez esse 'estrago' em mim nas últimas 3 semanas - foi um excelente estrago. Enfim, obrigada a todos: os pelos quais eu vou voltar e os que vou levar no pensamento eternamente!


sexta-feira, 25 de junho de 2010

E, subitamente, Bolívia! [ou: como minha vida vai, mais uma vez, mudar]

No fim de 2009 terminei a faculdade. Agora sim, psicóloga. Cinco anos longos, cheios de solavancos pessoais e profissionais, diversos estágios, palestras, trabalhos voluntários, apresentações acadêmicas, tudo em prol de uma carreira de sucesso. Porém no início de janeiro de 2010 fui para o Tocantins, participar do Projeto Rondon (como já citei aqui em um post) e minha vida mudou completamente!


O simples pensamento de trabalhar fechada entre quatro paredes começou a me dar arrepios e mudou meus objetivos. Antes eu queria montar um consultório e clinicar, fazer uma pós em psicanálise, quem sabe também em psicodrama. Fazer vestibular de inverno na FAP e realizar meu antigo sonho de ser atriz, arranjar um emprego em qualquer lugar, exercendo qualquer função - objetivos assim, sem muita forma concreta.

Tanto esse pensamento virou ''do mal'' que arrisquei duas atividades voluntárias pela faculdade (aquela com a qual já não tinha mais vínculos, além dos afetivos): ser monitora do processo seletivo do Rondon (dar 'aulas' para os candidatos interessados em participar das próximas operações) e ajudar um grupo de norte-americanos a realizarem suas atividades sociais em escolas daqui. Qual foi minha surpresa que, devido a essa segunda atividade, consegui um emprego! E não um desses empregos que me dava arrepios, mas sim algo absurdamente novo e desafiador: trabalhar com portadores de múltiplas deficiências! Fui e adorei, mas algo ainda me deixava inquieta... Ainda estava buscando por alguma coisa que não sabia bem nomear, ainda não estava me sentindo completamente satisfeita.

Foi quando surgiu no meu email a divulgação do processo seletivo da AIESEC voltado para intercâmbio praticamente imediato! E a loucura maior: focado em projetos sociais!



De repente era isso!
Um intercâmbio sempre foi um desejo muito grande, já conhecia a AIESEC e tinha bastante vontade de participar, e o melhor: teria a oportunidade de ir para qualquer lugar do mundo, fazendo o que mais adoro: lidar com pessoas!!!
Em duas semanas tudo aconteceu, a seleção, o resultado e o treinamento. Em mais duas semanas procurei por vagas. Troquei email com a Rússia, com a Colômbia, Bulgária e Venezuela, mas foi com a Bolívia que eu "casei"!!! Recebi um email, respondi e
'next thing i know' vou dar aula de inglês por lá e o mais louco: por cinco meses!!! Agora estou contando os dias, aproveitando os momentos, arrumando malas e materiais.


O intercâmbio foi o objetivo de eu ter entrado, porém participar da AIESEC também está sendo algo norteador. Desde o primeiro contato, todos foram abertos, sinceros, simpáticos, é muito bom o sentimento de pertencer a algo tão legal.


Enfim é isso.
Até o fim desse ano minha vida estará completa. Aí volto e acho mais uma ''loucura'' para embarcar. O que me pergunto agora é: se 17 dias (que foi o Rondon) fez o que fez com a minha cabeça, o que será de mim depois desses 5 meses longe de casa?????????

terça-feira, 8 de junho de 2010

Somente os corajosos falam o que pensam.

Dá muito medo dizer que uma pessoa é importante, é desconfortável fazer críticas, a maioria das pessoas não sabem como agir quando lhe é chamada a atenção e todo mundo - até a madre Tereza - já usou de eufemismos para evitar as palavras reais. É fato: a verdade dói.

Digo, com certo conhecimento de causa, que é muitas vezes mais fácil ter por verdade aquela que criamos em nosso imaginário, e digo mais: raramente somos sinceros com relação à realidade. É duro dizer isso, mas digo digo e digo que, simplesmente por excesso de ego e falta de superego*, somos extremamente restritos de visão de mundo.

Falta coragem, hoje em dia. Coragem e convicção. Uma coisa leva à outra, na verdade, falta coragem nos pais de colocarem em prática suas convicções e botarem limites nas crianças. Coragem na funcionária de tele-marketing de colocar em prática sua convicção de continuar estudando pra ter um futuro melhor e poder aumentar sua renda. Coragem ao policial que vê corrupção todo dia de ir relatar ao Ministério Público sua convicção de que aquilo que vê não é o correto. Falta coragem nas pessoas de agirem como únicas e falta a convicção de que toda pessoa é importante.

Parece que todos votam no silêncio, que é subestimado, admito, mas votam nele na hora errada!

* Superego: É a parte moral da mente humana e representa os valores da sociedade. (fontes duvidosas. wikipédia e minhas reminiscências das aulas)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

É tudo relativo.

Engraçado como acontece a vida. As oportunidades que surgem, as pessoas que a gente conhece, as coisas que fazemos, os lugares para onde vamos.

Angelina era dessas que não perceberia nada nem se a vida sapateasse em sua frente. Trabalhava numa empresa grande e tinha uma política severa de ''não se incomodar'', portanto mantinha-se à margem de todo e qualquer acontecimento. Não se incomodava, é fato, mas também não confraternizava, não se alegrava quando algum colega obtinha uma conquista e não esperava que alguém a felicitasse no dia de seu aniversário. Era uma vida tranquila, é verdade, sem os solavancos e eventuais tropeços que podem ocorrer. Não sofrera pela perda do Renato, da contabilidade, que morreu de repente, vítima de um latrocínio, sentiu algo, um frio na barriga pela proximidade da morte, mas não foi nada que lhe tenha tirado a vontade de comer ou de ir trabalhar, como aconteceu com a Cecília, com a Maria Emília e com a Fernanda, também da contabilidade. Vivia uma vida tranquila, e a seu ver um amor somente viria perturbar esse estado homeostático, portanto nunca envolveu-se com ninguém. Jamais sofrera como a faxineira Lídia, que ia trabalhar aos prantos quando brigava com Décio, seu 'amásio', nem nunca suspirou alto como a Natália, estagiária de administração, fazia ao ler os recadinhos apaixonados do João Henrique em seu orkut. Nunca fez um orkut, na verdade tinha medo da internet e de colocar até seu nome nas pastinhas da intranet. Vai saber quem vai ler o que escrevo, é o que pensava.

Já a Melissa, adorava relações. Conversava com todos, não ficava um final de semana em casa. No trabalho, na faculdade, supermercado ou no banco conseguia arranjar novos contatos, sempre em movimento e aberta a novas experiências. Consequentemente sofria mais do que Angelina. Chorava horrores, como a Lídia, pelo namorado da vez e sorria feito boba a cada encontro com um novo rapaz, romance era algo fundamental. Tinha algo em sua personalidade que era atrativo, sempre se interessava pelos outros, mas ao mesmo tempo era capaz de falar sobre si. Todos queriam contar suas novidades a ela que sempre parecia disposta a ouvir. Sempre que o filho da Carol, chefe de RH, fazia aniversário ou tinha uma apresentação um pouco mais importante, a Melissa ia e mais: fazia sucesso entre a criançada.

Engaçado isso, de diferentes atitudes, às vezes, nos levarem aos mesmos lugares. Ambas, Melissa e Angelina, foram transferidas de seus departamentos. Colocadas para trabalharem juntas. Os chefes acreditaram ser essa a única maneira de uma ajudar a outra a não ser despedida, pois ambas eram perfeitamente complementares.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Especialmente

O diferente faz doer os olhos.
Por mais difícil que essa frase seja é a mais pura verdade. É complicado para qualquer um olhar pela primeira vez para uma diferença com total naturalidade, senão impossível. Comigo não foi o contrário, mas é impressionante como mudou minha visão de mundo depois que comecei a trabalhar com pessoas especiais. Absurdamente clichê ou não, passei a dar mais valor às coisas pequenas - como comer sozinha sem derrubar nada, ou me sentar de forma ereta só com o apoio de minha própria coluna - e desenvolvi muito minha paciência, já que não é possível apressar alguém que malmente mantém-se em pé, numa caminhada de 50m. Comemoro mais, também, cada pequena conquista como, por exemplo, as desse menino da caminhada mesmo, que ao terminar de comer sozinho nos pede beijo e carinho na cabeça.

O que antes berrava como diferente, agora soa como especial.
Sinto, a cada dia de trabalho, que nada do que eu os fizer será pouco. Suas famílias (quase todas, sempre há uma exceção) os amam intensamente, fazem tudo que lhes está ao alcance para prover conforto e estabilidade dentro de suas condições. São pais, mães, irmãos, tios e avós cansados, abatidos pelo sofrimento implícito nessas vidas, mas que têm brilhantes os olhos quando se fala neles, os especiais.

Não é a toa o termo, especial. São sim especiais, no sentido enobrecedor do termo, pois vivem à margem de todas as sociedades, convivem apenas com aqueles que se propõem a trabalhar com eles e com os iguais em condição, dependem inteiramente de cuidadores, são frágeis, frequentam os poucos locais munidos de acessibilidade, porém ainda assim mantêm um sorriso no rosto, quase que agradecendo qualquer pequeno contato conosco, os 'normais'.

Perto deles me sinto pequena, mas sempre saio de lá maior.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

"Interculturalidades"

Há muito tempo atrás, uns 16 ou 17 anos, eu resolvi que ia aprender inglês.
Estava ouvindo um cd com musiquinhas infantis que meu pai trouxe do Paraguai e não gostava de não entender o que elas diziam. Sabia que minha mãe tinha um dicionário de inglês, de capa verde, que eu sempre achei super legal por que ela colocava datas na capa dele, de diversos acontecimentos da vida dela, tipo um diário - sei de onde puxei essa loucurinha meio poética que tenho - e perguntei se poderia emprestá-lo por um tempo. Claro que ela achou o máximo, mas no fundo percebi que não botou muita fé. Estava de férias, lógico que ela não botaria muita fé...
Porém, contrariando as probabilidades, nas próximas semanas dediquei-me ferrenhamente à tradução de todas as músicas daquele cd que, até hoje, aprecio.
Foi aí que começou meu facínio por idiomas.

Capa do tal cd


O mesmo resolvi fazer, há pouco tempo, uns 3 anos atrás, com o francês. Matriculei-me no Estadual, fiz um semestre e baixei um moooonte de musiquinhas.
Carla Bruni, Pink Martini, Yann Tiersen, Edith Piaf, entre outros, passaram a ser minha trilha sonora. Tenho orgulho de dizer que: "Le unique chose que je parle très bien on française, c'est que je ne parle pas!", que significa: "A única coisa que falo muito bem em francês é que eu não falo!".


Tive, também, uma incursão no fantástico mundo do alemão. Caramba, que loucura, sério! Os caras juntam 3 ou 4 palavras inglesas e formam uma só alemã! Fica aquelas coisas enormes e extremamente difíceis de falar, com trema, 'u' com som de 'i', 'v' com som de 'f'... Enfim, uma loucura que não rolou, mas rendeu uma fase de Rammstein que meus pais odiaram!!!!

Adoro idiomas, adoro isso de traduzir as coisas, entender a partir do contexto o que significa uma palavra ou outra, mas acima de tudo, adoro conversar com pessoas de outras culturas. Foram muito legais as vezes em que tive a oportunidade de conversar com extrangeiros.
Estive com americanos, no ano passado e nesse. Trabalhei, passeei e tive até uma paixonite aguda por um deles; consegui desmistificar um pouco a imagem péssima que eles têm do Rio de Janeiro, fazer com que perdessem o medo de irem pra lá sozinhos e mostrar que aqui não se tem apenas floresta, samba e 'boazudas' rebolando.
Falei ano passado com um par de atores uruguaios interessantíssimos, que largaram a carreira de publicitários para se tornarem artistas de rua e se deram muito bem, moraram na Cidade do México, em Quito, em Campinas e agora estão em São Paulo. Conversei por horas quando estiveram aqui pro festival de teatro e, um mês depois, quando fui pra São Paulo, encontrei um deles na Av. Paulista pra uma cerveja, duas mil histórias e muita risada.
Depois de sua apresentação falei com Francis Lebarbier, um francês, palhaço de carreira, idealizador de uma companhia chamada "Les Matapeste", que deu e dá voltas ao mundo divulgando seu trabalho, de forma tão sutil, diferente do nosso jeito brasileiro. Com um olhar perdido, mas atento ao mesmo tempo ele me ensinou sobre como os franceses olham. Com uma fala mansa, eu entendi tudo o que ele disse, pois falou manso justamente para que eu o entendesse. Ao tocar "Burguesinha", fez questão de - tentar - aprender a sambar e eu tentei ensiná-lo.

Não estou dizendo que todas as experiências foram 100% alegria, mas sem falar inglês, arranhar um francês e dar um jeito no espanhol (ah é, não mencionei o espanhol antes) não poderia comunicar-me diretamente com nenhuma dessas pessoas, teria que me limitar à tradução de algum outro, dependendo de sua fidedignidade e perdendo a essência da conversa.


A linguagem é uma das principais coisas que nos diferencia dos animais, a cultura é produto disso. Apreciar culturas, pra mim, é mágico! Treino tanto minhas 'línguas' pra isso, pra no fim, entender o que se passa na cabeça de alguém que mora a milhares de quilômetros de distância de mim sem ser de lá. Mesmo quando eu puder viajar para mil lugares diferentes, só entendendo o que se diz em cada um é que poderei dizer que, realmente, os conheço.

domingo, 16 de maio de 2010

No Rondon eu sofri.

Pelo calor excessivo, pelos mosquitos que fizeram a festa em minhas pernas, pela falta de sono, por ter que andar a pé e pelos horários de comer, que geralmente eram quando eu não tinha fome. Sofri também por ter tido que ouvir sertanejo e Djavu todos os dias e em todos os lugares, pela distância dos meu gatos e por não ter podido assistir meus programas de tv, porém todos esses sofrimentos juntos nem se comparam à tristeza de deixar tudo isso pra trás.
Fiz uma nova família, inseri-me em uma nova comunidade, participei de algo muito maior do que imaginei que seria. Fui para lá com a idéia de que o trabalho, as pessoas que eu iria conhecer e a diversão que teria seriam, de certa forma, superficiais já que passaríamos somente dezessete dias inseridos no projeto, porém não tinha noção de que tudo aconteceria com tamanha intensidade que marcaria minha vida para sempre. Nunca tive aulas de civilidade, nem venho de uma linhagem políticamente ativa, por isso acho que valorizo tanto essa experiência e, lógico, acredito piamente que aqueles que não desejam loucamente participar dela é louco de pedra.
Alguns chamam o Rondon de "curso intensivo de Brasil". Eu não concordo, acho essa afirmação um tanto quanto exagerada. Considero o Rondon uma "lição de vida e cidadania", assim como se propõe a ser.