Meus.

Meus.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Adendo.

Um fato engraçado que aconteceu durante a primeira 'janta comunitária': estávamos preparando o fogo para o churrasco no fundo do quintal, longe da área comum onde haviam as redes e as mesas, onde colocamos os ingredientes. O argentino tocava violao, a argentina olhava o fogo, o uruguaio servia vinho, todos cantávamos, quando Adam chegou com sua cara de morto-vivo, mais pálido que fantasma. Malmente podia ficar em pé, por isso fui buscar-lhe uma cadeira. Chegando lá na área comum, onde as comidas - inclusive carnes - estavam. Como somos ingênuos (para nao dizer burros), nem sequer nos atentamos ao fato de que haviam 3 gatos e 3 cachorros famintos vivendo ali!!! Uma das cadelas estava saboreando a sacolinha de carne, tranquila em sua cama e dois dos gatos estava saboreando a carne moída em cima da mesa!!!!!

''Socoooooorro!! Ajudaaaaaaa!!!!!!!!! Desastreeeee!!!!!!!'' meu pequeno alarde...
''Que foi??? Que foi??? AH NAO, HIJO DE PUTA, LARGA LARGA'' Martin, o argentino.
''Bruschenápolli'' (nao sei nenhuma palavra em italiano, essa eu inventei) Dario, o italiano.

Conseguimos salvar metade de cada coisa, ameaçamos os bichos com pedaços de pau e certificamo-nos de que ficariam longe pelo resto da noite!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Era uma vez a Amazônia... III

Quinta-feira, 16 de setembro de 2010.
Dois dias depoi
s do planejado, 8am.

''Tá se sentindo
bem, garoto?''
''Sim''
''Tem certeza?''
''Nao.''

''Ok, vamos.''

Café-da-manha delicioso, Adam aproveitou, comeu o primeiro, pediu mais um... Meus amigos saíram de seus quartos, por um instante, quis desistir de ir pro meio do mato cheio de mosquito, quis ficar ali conversando com eles como no dia anterior, mas nao dava. 9am chegou nosso barco!

Ah, sim, a pou
sada fica na frente dum rio que agora eu nao lembro o nome, mas é o mesmo que leva até a entrada do parque. 3 horas no barquinho, paisagem inacreditável: montanhas enormes, acidentadas devido aa chuva, com buracos em sua superfície e dentro desses buracos araras! Centenas de araras vermelhiiiinhas, por horas saíam em revoada! As condicoes mudavam tao rápido... de tranquila água marrom a violenta correnteza azul clarinha em questao de minutos, chega um ponto cheio de pedras, o barco encalha, todos descem pra um banco de areia, tem que atravessar a pé. Me fiz de tonta e fiquei ali:

''Posso ficar dentro do barco enquanto os senh
ores o retiram daqui?'' olhinhos de filhote
''Claro, señorita, fi
que!'' hihihi

Vinte minutos de
pois voltam todos, com os pés machucados - foram descalcos e o chao estava cheio de pedras pontudas - e me olhando com cara de 'que diabos, menina...'.

Ao cabo das 3 horas chegamos.

Desce do barco, caminhada até o acampamento - 1 hora e meia - chega.
Um lugarzinho particular... Árvores gigantescas cercando o acampament
o. Algumas cabanas dormitório, uma cabana banheiro e uma cabana cozinha. Almoco servido, delicioso! ''Agora é uma hora da tarde, vamos sair as duas pra primeira caminhada''.

Cabana cozinha.


Eu, Adam e dois belgas.
Eu, a sul-americana que deveria estar acostumada a fazer esse tipo de coisa, fui a única a nao levar calca comprida, e é de conhecimento-geral a idéia de que se deve cobrir o máximo possível nesse tipo de excurcao devido aos mosquitos, formigas e aranhas! Mas simplesmente nao me atentei ao fato, usava uma que cobria somente metade de minha perna. Compadecido de meu sofrimento, o belga ofereceu-me um par de meias compridas. De la. Funcionou direitinho para as picadas, mas funcionou também para deixar-me suando feito uma porca. Tres horas caminhando, uns 30 e poucos graus e eu com meias de la... Uh delícia - sem falar no charme! Ah, eu estava sexy com meu modelito.

Creio que fomos o grupo mais sortudo de todos os tempos desse tao desafortunado tour, pois supostamente nao deveríamos ver nenhum animal, porém contrariando as estatísticas vimos vários! Sentimos os primeiros, na realidade: uma manada de porcos selvagens. Seu fedor para espantar predadores resplandia por quilometros... meu asco foi tanto que soltei uma interjeicao: ''ééééca''.

''Desculpem!!! Eu juro que nao foi tao alto!!!'' eu tentando me explicar. Minha 'nao-tao-alta' demonstracao de nojo foi o suficiente pra alertar os bichinhos e tornar impossível uma observacao mais de perto. Strike 1.

Depois disso o guia comecou a 'me cuidar de perto'. Quando via algum pássaro interessante, um inseto grande ou macacos - sim, vimos um grupo enorme de macacos TOOOOMA TOUR MAIS CARO - ele olhava diretamente pra mim e fazia shhh. Consegui me comportar direitinho, pelo menos até chegarmos a um rio cheio de piranhas onde iríamos pescar!!!!

Uhuuuu, pescar!!! Wee, pescar... Pescar, eba. Aff, pescar, que tédio!!!

Uma de minhas qualidades bem de 'menininha' é a de nao saber pescar. Dez minutos lutando contra o anzol foram o suficiente pra fazer com que eu me satisfizesse com a posicao de observadora. Observei tranquilamente quando eles conseguiram pescar tres! Pobres bichinhas, pulando desesperadamente.

''Ok guys, lindo, adorei, agora vamos, coloquem-nas de volta na água!''
''Colocar na água? Tá maluca??''
''Mas ela vai morrer!!!''
''E voce come peixe vivo???'' Adam, o macho-alfa que sente prazer em matar o próprio jantar
''A gente vai comer elas??? Tadiiinhas!!!''
* ok, uma pausa pra explicacao: eu nao sou tao mala assim, estou usando de minha licenca poética pra exagerar alguns fatos. Acreditem se quiser. *
Porém, com exagero ou nao, dez minutos depois uma delas estava viva ainda, uma guerreira, uma batalhadora ''c'mon guys, ela merece vá...''. No fim das contas tivemos duas piranhas pra janta!!!
Strike 2
.

Voltamos ao acampamento, banho, janta com duas piranhas - que no fim das contas eram deliciosas, mama mia, se eu soubesse tinha matado eu mesma a terceira!!! Os outros (tinham mais 6 pessoas no grupo, mas eles estavam fazendo o tour bambambam, entao nao se misturavam muito conosco) acenderam uma fogueira, sentamos ali por umas duas horas até o guia nos chamar pra caminhada noturna.

Caminhada noturna. Isso quer dizer caminhar a noite. No meio do mato e, adivinha só, nao levei lanterna, o ingles muito menos! Pavooooor, mas vamos né. Vi gnomos, duendes e fadinhas durante a caminhada. Quase arrancava o braco do Adam ou de quem estivesse por perto quando ouvia um barulho, por menor que fosse, mas o ápice de minhas 'meninices' aconteceu quando o guia parou abruptamente em frente a um buraco no chao, buscou um pedaco de pau e comecou a cutucar! Nao tinha nem idéia do que iria sair dali, podia ser um tatu ou um elefante, pra mim dava na mesma naquele momento. Podia ser tudo, menos o que comecou a aparecer...

Uma tarantula!
Sim, AHHHHH! Vi duas de suas pernas horrivelmente pretas e peludas saindo e, adivinha? Pulei e gritei 'AHHHH'.
Definitivamente STRIKE 3!!!!
A bicha voltou correndo pra dentro e nao houve cristo que a tirasse novamente. E nao houve cristo que fizesse os meninos entenderem que foi uma reacao instintiva, que nao foi de propósito, que uma tarantula nao é tao grande coisa assim... Mas a raivinha deles logo passou e voltamos a ser lindos amigos, voltamos ao acampamento e eu fui direto pra cama. Credo, mas que noite horrível!!!! No comeco um calor infernal, no meio um frio de tremer e ao amanhecer eu nao sabia se estava suada de calor ou de febre. Sem dizer os malditos insetos que tem certamente uma passagem secreta através do mosquiteiro e as lagartas venenosas que fizeram desfile em cima da minha cabeca.

Manha seguinte exatamente o mesmo: café-da-manha delicioso, caminha e caminha, volta pro acampamento, almoca e fim. Quando dei conta o barquinho já tava ali, 3 horas de novo, dessa vez dormindo com os pés na água, sensacao deliciosa!!!

Chegamos a pousada, saudei meus amigos: o italiano e o uruguaio nos estavam esperando!
A noite mais um jantar coletivo, mais uma noite memorável com comida deliciosa, porém dessa vez mais curta, pois voltaríamos a La Paz naquela mesma noite de sexta-feira.

Só depois de entrar no ô nibus que me dei conta: nao havia pegado nem os nomes inteiros de nenhum deles, nem um email, nada!!!! Meus olhos encheram-se de água.

''É, acho que nunca mais os verei...''
''É uma pena realmente. Você passou mais tempo com eles, mas já consegui ver que eram boa gente. Sinto muito.''

Nos calamos por duas horas, até o ô nibus chegar, fomos embora em silê ncio, uma vez mais pela estrada da morte, mas agora nao tive medo, pois nao só cheguei viva ao final dessa estrada tres vezes como ganhei e ganhei muito.

Obrigada estrada da morte!

Era uma vez a Amazônia... II

Durante as longas horas de viagem fizemos algumas paradas na estrada para comer e para xixi, e lhes digo: que aventura é fazer xixi na estrada a caminho do fim do mundo! Paga-se a pexinxa de 1 boliviano (uns 25 centavos de real) e ainda é caro - poupo-lhes de descricao, deixo livre a imaginacao do leitor.

Nao sentia fome mesmo sem comer por mais de 12 horas, creio que pelo nervosismo e o calor extremo, mas Adam, o magro de ruim sim. Frango deveria ser o prato típico da Bolívia, porque em todos os lugares, a todos os momentos e de todos os jeitos se pode encontrar e comer se voce for masoquista o suficiente. Inclusive na beira da estrada rumo ao fim do mundo! Haja coragem para comer aquele frango que estava ali há, sabe-se deus, quanto tempo... Porém para meu espanto, meu companheiro de viagem teve e ambos pagamos o preco!

Era meio da madrugada, nao sei que hora ao certo, pois por sorte agora eu já conseguia dormir - ressonar ao menos - sem preocupar-me com o, ainda presente, precipício. O onibus parou, mandaram-nos descer e buscar nossa bagagem, descemos meio confusos, pensando que seria uma parada rápida, já que esse lugar parecia igual a todas as outras paradas de antes, nos acomodamos no banco e ali ficamos por mais ou menos 40 minutos até eu ter a simples idéia de perguntar onde estávamos: ''en Rurrenabaque'', respondeu-me tranquilamente uma senhora que já estava indo embora.

''Adam, acorda, já chegamos!''
''Que? Nao, acho que nao, relaxa o onibus já vai sair'' vira pro lado.
''Nao, criatura, já chegamos!! Eu perguntei pra uma mulher!!!''
''Tá brincando??? Vamos embora entao!!!''
* genio *

Moto-táxi. O meio de transporte mais comum nessa cidadezinha do tamanho de um ovo.
Eu com minha mochila desengoncada de 10kg + Adam com a sua e seu violao + uma moto e seu motorista = impossível tudo ao mesmo tempo. Foi-se ele fiquei eu, sozinha, no meio da noite, rodeada por uns homens esquisitos mascadores de coca, no escuro. Uns dez minutos depois volta a moto pra me buscar, levou-me a pousada em que já tinhamos um gracioso quartinho com banheiro que Adam já havia estreado. O felicitei por sua brilhante idéia de provar o diabo do frango de beira-de-estrada!!!!

Os tours partindo daquela cidade pra ir ao parque nacional Madidi eram divididos em duas categorias: um com duracao de tres dias e duas noites, ia mais 'fundo' dentro da selva, prometiam animais e um grande conhecimento das espécies de plantas e blablablá. O outro, dois dias e uma noite, nao ia tao longe, nao prometiam animais - se tivessemos sorte quem sabe - e de nome de planta conheceríamos só a alface do almoco. A diferenca gritante das duas categorias se dava, claro, pelo preco. O primeiro custa o triplo do segundo!

''O segundo, senhora, vamos com o segundo!'' eu, para a dona da pousada e também ¿agente de viagens?
''Mas veja bem, o primeiro tem muitas vantagens, por exemplo voces podem ver uma anaconda...''
''Ela está em cativeiro?''
''Nao, está em seu habitat natural''
''Entao se ela nao estiver a fim de sair da toca eu nao vou ve-la, certo, eu só posso ver uma anaconda, mas também há a chance de nao ver...''
''É, sim, há a possibilidade de nao se ver...''
''Bom, no segundo também há a possibilidade de ver, entao como é um terco do preco eu prefiro correr o risco de nao ver. O segundo!''
''Mas veja bem...'' e essa conversa durou mais uns 15 minutos. Ela tentando empurrar o tour mais longo, eu decidida a fazer o mais curto, mas finalmente a convenci de que nao seria convencida.

Dois minutos depois de fechar o negócio pensei: ''uhm, vou escutar uma musiquinha tranquila''. Fui ao quarto e procurei meu IPod. Procurei e procurei. FUCK. Perdi ='(
Corri pra rodoviária, nao me deixaram entrar no onibus que ainda estava lá pra procurar, e disseram que nao, nao estava lá. Com um ódio mortal tive que dar-me por vencida e dar adeus as minhas musicas queridas!

Adam continuava mal. Indo do banheiro para a cama da cama para o banheiro o dia inteiro e o tour seria no dia seguinte... Torci para que melhorasse sozinho, já que nenhum remédio queria. Passei o dia caminhando sozinha pela cidade, voltei e continuei lendo ''A Volta ao Mundo em 80 Dias'' deitada numa das redes, e por momentos observando as criancas brincando com os animais: o Pancho, uma ovelha marrom, perseguia uma menina que saia correndo com uma galinha em baixo do braco. Pulava, se desviava, subia, descia...


A galinha mais feia do mundo.


Na manha seguinte acordei 7:30hs como planejado, cutuquei o doentinho que disse que levantaria em meia hora, saí e fui tomar café. Deveríamos estar prontos as 9hs.

Assim que sentei a dona da pensao veio com um chá para dar pro Adam e uma notícia: o tour havia sido cancelado naquele dia, tanto por ele quanto pelo outro rapaz que iria conosco que estava mal também pela mesma razao, os tais dos pollos de beira de estrada. Dei o chá e a notícia, ele comemorou, virou pro lado e dormiu. Eu só pensei: ''mais um dia de peregrinacao solitária''.

Por sorte enganei-me, nao sabia a sorte que me esperava.
Eliana e Martín, ela de Buenos Aires ele de Córdoba, Diego uruguaio e Dario italiano. Os quatro tomavam café silenciosamente - com razao, pois o desayuno oferecido ali... hum que maravilha: panquecas fresquinhas com doce-de-leite, omelete e frutas recém-colhidas - mas logo comecamos a conversar e conversar e conversar e logo sabíamos tudo da vida um do outro e planejávamos uma janta comunitária para aquela noite e zás... Assim comecou a coisa mais mágica dessa viagem: a amizade com essa gente!

Lá pelas 18hs fomos ao mercado. Os argentinos encarregados da carne e do fogo do churrasco, o italiano das almondegas e bruschettas, o uruguaio escolheria as bebidas e eu saladas, lavar pratos, colocar a mesa, tirar a mesa... Voltamos e comecamos a fazer as coisas. Adam, o mais pálido que fantasma nao entendeu nada quando nos viu carregando lenha, pratos, alfaces e paes lá pro fundo da pousada. O expliquei, mas o pobre nao pode participar da 'festinha', pois ainda sentia-se muito fraco e amanha 'si o si' aconteceria nosso tour, portanto o melhor é mesmo que descanse!!

Foi uma noite memorável!
Uma das muitas que ainda estavam por vir com essas pessoas.


Diego, a cadelinha que nos seguia em todo lado, Dário.
Foto tirada sem que eles vissem. Nao gostam de ser fotografados.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Era uma vez a Amazônia... I

Como nao canso de dizer, La Paz é uma delícia de cidade, mas nao é só de La Paz que se faz uma viagem.

Depois da aventura extrema, um dia de completa 'morgaçao' era necessário. Como estávamos no hostel mais 'badalado' da cidade, achar coisa que fazer ali dentro mesmo nao era difícil, como por exemplo receber Daniela, a brasileira da minha cidade que estava no tour, e seus dois amigos para tomar umas cervejas no bar - sem sequer precisar tirar o pijama!

Mas a letargia nao durou por muito tempo, fomos dormir cedo, pois nosso próximo destino já estava decidido. Sairíamos na segunda cedinho para Rurrenabaque, o ''portal da Amazônia'' boliviana! Adam, o europeu acostumado com outro tipo de cenário, nunca sequer imaginou como é a tal da rainforest, estava mais animado do que criança! O pensamento de estar cercado por árvores, de ver macacos, de pescar o deixava inquieto. Essa sua alegria em ir foi o único motivo de eu nao tê-lo matado quando, para meu terror, reconheci o caminho por onde estávamos indo...

''Nao, nao pode ser. Relaxa que nao iríamos pela estrada da morte com um ônibus de dois andares.'' disse ele, enquanto chegávamos mais e mais perto daquele trecho que havia temerosamente descido, duas manhas antes.
''Está mais perto, Adam, a gente vai sim pela estrada da morte!!!'' e fomos!!!

Se antes eu controlava a bicicleta, ia mais devagar e beeem rente ao lado sem precipício pra nao ter um ataque do coraçao, agora estava fora do meu alcance! Meu nervosismo foi extremo, nao podia olhar pro lado que me dava vontade de chorar! Nao sabia por quanto tempo ficaríamos naquela estrada, sabia que a viagem duraria 17 horas e a simples idéia de que seriam 17 horas naquela estrada me fazia tremer dos pés à cabeça! Pra nao esgotar meu corpo por estresse demasiado, comecei a ler. ''A volta ao mundo em 80 dias'' era o que tinha ao alcance e foi perfeito! Mergulhei no mundo do Julio Verne, Phileas Fogg e Passepartout e a viagem foi rápida, esqueci de tudo...

... tudo mesmo, inclusive meu IPod!!!
='(

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

La carretera de la muerte!!!!

Na altiva cordiheira dos Andes Bolivianos encontra-se a espetacular e vertiginosa Estrada dos Yungas popularmente chamada de Estrada da Morte. É estimado que morrem em torno de 300 a 350 pessoas anualmente em acidentes ao longo de seus 64 quilômetros de percurso com 3.600 metros de desnível. Outra característica muito conhecida são as "Santas Cruzes" ao longo da "pirambeira". Cada uma significa que um automóvel rolou morro abaixo. Hoje em dia ciclistas do mundo inteiro aventuram-se ladeira abaixo, desfrutando uma das mais belas vistas do mundo.

Seis e meia da manhã. Acordei com meu despertador naquele sábado de 11 de setembro, acordei e olhei ao redor: os meninos também acordando, acordei um pouco cansada ainda pela viagem do dia anterior, mas acordei já pronta pra viver aquele dia em que iria descer a estrada da morte!!! Um arrepio rápido me congelou por uns dois segundos quando lembrei desse detalhe, mas passou devido à minha imprudência maior do que o bom senso, então levantei.

O quarto lotado, eu mais treze, Adam e Julien e onze desconhecidos, desses um bandinho 'banduleiro' de australianos que chegou uns minutos antes de levantarmos. Fazia frio, corri prum banho rápido, coloquei a roupa que escolhi na noite anterior e fomos correndinho, pois o Julien ainda tinha que sacar dinheiro. Chegamos no local estabelecido, todos os outros do tour já tomando seus cafés-da-manhã: um alemão e sua namorada francesa, uma argentina e uma curitibana (quais são as chances) completavam o grupo. O grupo que estava fadado a viver ou morrer naquele sábado fatídico para a história do mundo, o grupo que estava com suas horas contadas, caso um mínimo deslizamento de pedras estivesse previsto nos planos do articuloso 'deus das pedras rolantes', o grupo que... bem, exageros a parte, iria descer de bicicleta um caminho íngrime.

O caminho até o início do tour foi colina acima de La Paz, portanto um espetáculo a parte! As ruas estreitas, olhando pro lado a cidade lá embaixo, super lá embaixo, uns 200m. Mercados com frutas, carnes, peixes, roupas e fetos de lhama espalhados, as tradicionais 'cholas' com suas roupas características atravessando em nossa frente de repente. Aos poucos a cidade foi acabando, em seu lugar as casinhas apartadas umas das outras, com os campesinos iniciando outro dia novo, tudo isso com uma das mais incríveis vistas ao fundo.

Uma hora até o local certo para iniciar a descida, pára, coloca o equipamento, tira fotos e mais fotos, de repente: tudo pronto! ''Aijesuiscristo, to com medo'', mas era tarde demais pra isso, vambora que tá na hora!!! E fui!!! No comeco era uma estrada normal, tínhamos que cuidar apenas com os carros que vinham. Parávamos a cada 10 ou 20 minutos pra descansar. Um vento gelado e forte no rosto o tempo todo, uma sensacao louca e indescritível, de estar descendo rápido uma estrada, olhar pra direita: montanha, olhar pra esquerda: montanha. Uma mais linda do que a outra, com neve no topo, altas. Chegamos no posto de polícia, pausa pra xixi, água, banana, chocolate, relaxar porque agora sim o bicho vai pegar. Nesse trecho nao vamos pedalando, pois é subida (viu que vida fácil), entao colocamos as bicicletas em cima da van e fomos, confortávelmente sentados por 20 minutos, até o fim da estrada nova - consequentemente o comeco da velha.

Mal descemos do carro já notei a diferenca: nada de asfalto, agora é terra e pedra. Nada de murinho, agora é cara-a-cara com o precipício (lógico né, quao mortal seria se tivesse protecao). Entao é isso, ''let's vamos'', diz nosso bilingue guia!


* As próximas 3hs sao impossíveis de descrever por meras palavras. Recomenda-se fortemente a experiencia. *

Ao final, chegamos ao hotel onde nos foi servido almoco, oferecidos chuveiros e uma enorme e gelada piscina. A temperatura transformou-se durante a descida: comecamos com 12 graus e terminamos com 33. Nao há saúde que resista, no dia seguinte malmente podia levantar da cama, tanto pela gripe quanto pela dor nas pernas. Mas no dia seguinte, um domingo preguicoso que passei perambulando por La Paz, cheguei a conclusao de que só podia ter sonhado... Nao é possível que fiz isso! Eu, a rainha da preguica, a que paga pra nao andar, a que nem bicicleta tem!!!!

Pois é, como diz a camiseta que ganhei: ''O caminho da morte: eu fiz e sobrevivi''!!!
E foi uma das melhores coisas que já fiz na minha vida!!!


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Vida de mochila - I

Tudo comecou quatro horas da tarde duma quinta-feira queeente, quando o onibus deu a partida e eu saí de partida para uma coisa que nao sabia bem como haveria de ser. O que me esperava, se drama, romance, aventura ou comédia, eu nao sabia, sabia sim que queria que fosse, ao menos, exatamente o que eu esperava: tudo isso junto.

Durante as 17 horas de viagem pensei nas circunstancias da partida, em tudo que havia passado, no momento em que comecei a pensar em partir. Nao me deprimi, mas quase. Sorte que tinha minhas músicas e uma paisagem, no mínimo pitoresca, pra me distrair. Adormeci quando a noite veio, despertei quando o sol surgiu. Ainda no onibus, andando, andando. O corpo torto, tentando caber na poltrona. Casinhas comecaram a aparecer na beira da estrada, apartadas umas das outras. Campesinos comecando seu trabalho, lhamas em punho, para a luta de outro dia. Ao fundo enormes montes com polvilhados de neve, ''será que estou chegando?'' e num piscar de olhos - 17 horas depois de 17 horas acabam passando num minuto - cheguei!

''Caraamba que é isso??? As casinhas empilhadas nos morros... Essas mulheres estranhas com seus chapéizinhos minúsculos e saias gigantes... Quanta crianca, credo... Nao, nao quero milho cozido, nem pipoca, nem esse cachorro-quente suspeito, nem um prato de comida sete horas da manha (tudo isso dentro do onibus)... Meu deus, olha só, mas que cidade mais linda''
E foi assim que saudei La Paz!

Minha mochila tinha ¿apenas? 10kg, mas mais parecia 230. Saí a busca do rosto conhecido que deveria estar me esperando. Andei um pouco, o vi. Com a mesma camiseta, jaqueta e calca que o conheci - será que é verdade que europeu nao é tao higienico quanto a gente? ai, longas tres semanas, se sim - estava Adam, o ingles magrelo e de cabelo revoltado que conheci em Santa Cruz sem querer, que ia ficar por apenas um dia mais, mas que acabou ficando tres semanas. Conheceu a dona dum bar - ao qual eu ia todo fim de semana - e trocou sua mao de obra por um cantinho pra dormir. Assim, tornou-se um amigo.

''Hey, como foi a viagem?''
''Uma merda, mas boa! Preciso dormir! Eu tenho o endereco dum hostel que me disseram que é bom...''
''Nao, nao, eu já fiz reserva pra vc no que eu estou. Trust me, it's wicked but you'll like it!!''
E assim comecou a história do 'trust me, you'll like it', ele sempre dono do saber, eu sempre confiando e, nao contem isso pra ele, mas no fim, sempre gostando.

Loki. Nao muito longe da rodoviária. Entrei no táxi e desci do táxi, subi dois lances de escada e... ugh... cansada. Sentei no lobby enquanto Adam, o porta-voz, perguntava de minha reserva. Mais dois lances pra subir... Jesuscristo, meus pulmoes!!! Quarto com quatorze camas, ok, a minha: beliche, o meu: o de cima. ''Posso deitar e dormir agora?'' pergunto inocentemente ao 'camareiro'... ''er, nao, tem que esperar até as 13hs, que é a hora do check-in'' ''FUCK''.
Ok, posso ir dar uma volta e/ou conversar um pouco com o Adam. Olha pro lado, o belezinha roncando, dormindo como se nao houvesse amanha. ''É, comecei bem''.


De cima do meu beliche.


Bem turista, com mapinha na mao, rolei sozinha ladeira a baixo em busca de algo interessante pra fazer, 9hs da manha, com um sono desmaiante e um cansaco fora do comum. Uma dor-de-cabeca incomoda e essa porcaria de cansaco nao me deixavam em paz, quando OOOOH, lembrei que estava a 3.600 metros acima do mar, o cansaco e a dor de cabeca foram previstas, lembrei dos tais dos Sorochi Pills que me indicaram e disseram que era bom comprar uns 2 ou 3. Na dúvida comprei 12 (sobrou, claro) tomei e OOOOOH, milagre, tudo ficou bem pelos próximos dois dias. Aí sim La Paz comecou, de novo, a ficar bonita!!!

Andei e andei, entrei em livrarias, museus, até na casa do governo - ignorando os homens com as enormes escopetas enferrujadas - e, qual minha surpresa: meio dia. Almoco!!! Uau, que fome. Come, volta pro hostel (direitinho!!! mapa fofo) e aí sim ''posso deitar agora?'' ''sim, agora pode''. Acordei cinco da tarde, com o Adam me cutucando:

''Acorda, vamos, temos que ir pesquisar precos do tour da 'Estrada da Morte', meu amigo Julien...''
''Peraí, que amigo?? Voce nao me falou de outro amigo''
''Ah, é que o conheci ontem aqui no bar do hostel''
* uma informacao valiosa: Adam conversa uma vez com uma pessoa e já chama de melhor amigo *
''Ok, que tem teu amigo?''
''Ele tem que ir embora logo, por isso pensamos em fazer o tour amanha, entao temos que ir logo pq as agencias fecham as seis''
'' ... ''
* cara de 'e pq nao foram antes? se eh so pesquisa pq eu tenho que ir junto?' *
''Ahm... vc queria dormir mais? Se quiser, pode ficar aí, eu te aviso depois...''
''Sim, bonito, queria dormir mais, mas agora vc já me acordou. Vamos.''

Por sorte, Julien era um cara muito legal. Da Bélgica, falava ingles com sotaque frances e se tocava que pra mim nao era agradável quando os dois comecavam a falar frances - Adam, o poliglota nao.

Ok, estou sendo extremamente negativa com relacao ao Adam, pode-se pensar que ele é um tremendo mala, mas... Essa foi a minha primeira impressao! Por essa razao quase me arrependi de ter ido com ele e previ uma 'separacao' no meio do caminho, porém ao longo do tempo nao só me acostumei com suas, digamos, inglezisses, como passei a adora-lo como pessoa. Mas vamos com calma, já que isso leva um tempo!

Depois de reprovarmos quatro agencias, a quinta - que no caso foi a primeira em que entramos - foi a vencedora. El Solario tinha uma vendedora simpática e um preco razoável. Fechamos o pacote e nos comprometemos a irmos, no dia seguinte, descer de bicicleta 1.600 metros, pela estrada carinhosamente intitulada ''A estrada da morte - A estrada mais perigosa do mundo''.

Fomos jantar num restaurante fast-food a moda boliviana (peruana também, descobri depois), que serve frango frito de todas as formas. Ok, quantas formas pode ter um frango frito? Uma nova, ''a melhor invencao de todos os tempos'', como diria Adam, o hiperbólico: o copo do refrigerante era o suporte pro pote de frango. Creio que nao me expressei bem e nao tenho foto pra demonstrar, mas resumindo nao era tao grande coisa assim a apresentacao, o gosto é que era o melhor.

E foi assim o primeiro dia!
Voltamos ao hostel, eles foram ao bar que lá dentro há e eu fui dormir pensando:

''Mesmo que o resto da viagem feda, valeu a pena só por ver a tal da La Paz!! Ow cidade bonita!!!!''

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Cotoca

Depois do sábado na cozinha marcamos uma pequena viagem para o domingo. Acordamos de madrugada (8hs) e encontramos os meninos no Parque Arenal, ao lado do Mercado Los Pozos. Além de Hugo, Stuart e Jack estava Mark. Mais um mochileiro??? Sim, mais um mochileiro, mas esse nao é um mochileiro qualquer...
Mark era do exército americano, chefe de uma tropa de 15 homens no Iraque!!! Lutou por 3 anos lá, até fim do ano passado, quando pediu afastamento - nao verbalizou o porque, mas ficou bem claro que foi pelas cicatrizes que esse período deixou. Voltou para casa, ficou lá por 2 meses, comprou uma moto e saiu pelas Americas afora... Veio descendo desde os Estados Unidos até o extremo sul, já chegou ao Uruguai, passou pelo Brasil, pela Colômbia, Venezuela, Equador, Jamaica... Uns trechos voou, despachou sua moto por transportadora, mas a grande maioria do trajeto veio pilotando. Tive a sorte de conhece-lo. Sorte sim, mesmo sendo contra-guerra e quase tendo saído no tapa com ele por ter dito isso, nuuuuunca na minha vida pensei que iria trocar experiencias com alguem dessa realidade!!! E que realidade, caramba. Nao tinha reparado, mas o Stuart me chamou a atençao ao fato de que quando uma bombinha ou fogo de artifício estourava os músculos dele contraíam-se todos, ficava tenso, olhando para os lados... Mas mesmo com toda essa experiencia traumatizante é doce, extremamente fácil de se conversar, calmo, inteligente pacas... Novamente digo que foi sorte minha conhece-lo.
Bom, partimos de Santa Cruz às 9:30hs, demoramos um pouco pois andamos por todo o mercado, infelizmente... Ok, nao é tao diferente de um mercado ou uma feira brasileira, que tambem tem carne exposta, mas lá foi diferente, as galinhas estavam inteirinhas, uma delas até com UM OVO dentro!!! Cabeças de porco??? Umas cinco por barraquinha. Bois?? Inteiros. Nao sei se é coisa da minha regiao, mas nunca tinha visto tal show de horrores... hahaha. Chegamos em Cotoca, a cidadezinha vizinha, 10:30hs e qual minha surpresa que o maior atrativo de lá é a igreja católica... E que aos domingos há uma enorme romaria, missa em latim e benzimento de carros. Imersos nesse clima passamos a manha inteira e começo da tarde observando as pessoas, ouvindo as explicaçoes do Hugo sobre o que estava acontecendo e, ocasionalmente, fazendo comentarios sarcasticos sobre uma coisa ou outra. Nao faltamos com respeito em momento algum, mas éramos um grupo composto inteiramente por 'nao religiosos' (leia-se: nao praticantes ou adeptos de essa ou aquela religiao, nao necessariamente céticos, agnósticos ou algo do tipo), portanto foi algo absolutamente cultural. Exceto no momento em que fomos acender velas que nos garantiriam um pedido, pois o Mark nos subornou... quer dizer, nos convenceu a pedir à virgem que ela consertasse sua moto - e para constar deu certo! Subimos na torre da igreja e aguardamos o momento do soar dos sinos. Exato meio dia apareceu um rapazinho franzino, duns 17 ou 18 anos, que agarrou as cordas ao mesmo tempo e começou a tocar! Apesar de quase ter ficado surda, foi incrível escutar a melodia que ele tirava daqueles tres sinos, a forma com que ele iniciou devagarzinho e foi aumentando a intensidade, modificando os sons, enfim... 15 minutos de intensa vibraçao em meus tímpanos que valeram a pena.
Voltamos e fomos à uma feira de chocolate, depois comer Sonso (meu prato boliviano favorito) em uma sorveteria, por fim bater papo no terraço dum barzinho em frente à catedral. Mais um dia memorável, cheeeio e satisfatório!!!